"E me mantive quieta e muda."

ser bemol ou sustenido



hoje eu queria o som de dentro
da melodia das paredes do meu corpo
ser avassaladoramente musical
como os pássaros que só nascem pra cantar

hoje eu queria a canção mais terna
a musicalidade do silêncio, do vento
que não faz sentido, mas tem direção
que canta suavemente sem intenção

hoje eu queria ser o acorde dissonante
sem pretensão, desalento ou temor

17h


Durante muito tempo enquanto morava em Poço Verde eu sentava no canteiro em frente a minha casa. As vezes mais tarde ou mais cedo, mas sempre perto das 17h. Nunca foi pensado como a hora de fazer isso. Era invluntário. Sempre às 17h lá estava eu com as pernas cruzadas em cima do canteiro, quase em posição de meditação. A esse horário as minhas vizinhas também sentavam nas calçadas e conversavam tarde a dentro e os meninos das oficinas em horário de distração paquerando as meninas que ali na rua passavam. Eu sempre gostei desse movimento da minha rua às 17h. As pessoas indo à padaria, ao mercadinho, voltando do colégio, do trabalho. E eu sentada no canteiro  sozinha a observar esse ir e vir, mas observando o meu estar ali. A vida no interior é muito simples, é disso que gosto. Era disso que gostava de observar. Agora que não estou mais lá isso tem uma força maior. Porque às 17h estou me arrumando pra ir pra universidade. Fico imaginando esse movimento que acontece lá sem mim. Provavelmente o meu pai possa estar sentado no canteiro recém chegado da sua labuta diária da roça. Talvez a minha mãe ou a minha madrinha estejam lá também. Sem mim. Eu tenho um carinho verdadeiro por esse momento no canteiro. A vida simples do interior nos proporciona esse momento sutil de conversa jogada fora. Meu sentimento por estar ali, no canteiro, talvez se explique pela tarefa diária e assídua de observar pessoas. Desconheço até que ponto isso é bom, o que já é uma frequência em minha cabeça. Ora confusão, ora aceitação de que há um limite. E que eu preciso encontrá-lo.
O meu relógio involuntário está ligado, e mesmo estando longe daquele canteiro, às 17h eu estarei lá.

Eu não mando em mim

Estive pensando no que realmente vale passar e repassar em minha mente. Naquilo que não deveria por algum motivo tomar tanto tempo dos meus pensamentos. Que o que se passa aqui dentro não deveria de forma alguma ser constante e explícito. São pensamentos que sempre caem na direção de um certo ser. Ser esse que mal vejo, e que quando, raramente, acontece de nos esbarrar pelas ruas eu quase não olho nos seus olhos. Engraçado que a gente se perde quando nos vemos, quer dizer, EU me perco. Olhar no olho é um dos desafios mais distantes de superar. Até parece que serei crucificada se isso acontecer. Sinto-me ridícula primeiro por não conseguir olhar no olho dele, segundo por estar escrevendo sobre isso. Que boba! Quem lê? Volto e me perdoo por isso tudo porque li esses dias que "todas as cartas de amor são ridículas", e eu concordo, mas o que escrevo não é carta de amor e eu nunca o senti, não por completo.

Eu

Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…
Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Pra falar de coisa breve

Essa peça que o tempo prega de obrigar a nos prender em algo que não devia ser de certo obrigação.