"E me mantive quieta e muda."

17h


Durante muito tempo enquanto morava em Poço Verde eu sentava no canteiro em frente a minha casa. As vezes mais tarde ou mais cedo, mas sempre perto das 17h. Nunca foi pensado como a hora de fazer isso. Era invluntário. Sempre às 17h lá estava eu com as pernas cruzadas em cima do canteiro, quase em posição de meditação. A esse horário as minhas vizinhas também sentavam nas calçadas e conversavam tarde a dentro e os meninos das oficinas em horário de distração paquerando as meninas que ali na rua passavam. Eu sempre gostei desse movimento da minha rua às 17h. As pessoas indo à padaria, ao mercadinho, voltando do colégio, do trabalho. E eu sentada no canteiro  sozinha a observar esse ir e vir, mas observando o meu estar ali. A vida no interior é muito simples, é disso que gosto. Era disso que gostava de observar. Agora que não estou mais lá isso tem uma força maior. Porque às 17h estou me arrumando pra ir pra universidade. Fico imaginando esse movimento que acontece lá sem mim. Provavelmente o meu pai possa estar sentado no canteiro recém chegado da sua labuta diária da roça. Talvez a minha mãe ou a minha madrinha estejam lá também. Sem mim. Eu tenho um carinho verdadeiro por esse momento no canteiro. A vida simples do interior nos proporciona esse momento sutil de conversa jogada fora. Meu sentimento por estar ali, no canteiro, talvez se explique pela tarefa diária e assídua de observar pessoas. Desconheço até que ponto isso é bom, o que já é uma frequência em minha cabeça. Ora confusão, ora aceitação de que há um limite. E que eu preciso encontrá-lo.
O meu relógio involuntário está ligado, e mesmo estando longe daquele canteiro, às 17h eu estarei lá.

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